Saudade, essa puta.

24/08/2016

A saudade é uma puta que te apanha desprevenido e, sorrateira, aproveita todas as brechas. Entra-te pela cabeça e esconde-se nos recantos mais escuros para te surpreender quando menos esperas. A saudade é uma puta, que te consola e te ilude, te machuca e te fere, quase te mata. Te faz rir às gargalhadas e chorar às convulsões. A saudade é uma puta que ali fica, a olhar para ti, certa de que te venceu, de que vais render-te, pedir misericórdia, perdão. A saudade é uma puta, que te atira para o chão, te deixa estendido, prostrado, inerte, letárgico. A saudade é um direto nos queixos, um entorpecente muscular, um pontapé nos rins, um mace nos olhos. A saudade é matreira, cobarde, desigual. A guerra contra a saudade é uma batalha perdida, a saudade ganha sempre, essa puta. A saudade é um zumbido no ouvido, uma moinha abdominal, uma pontada nas costas, uma falha nas juntas, um ardor na pele. A saudade é uma janela que chia, o vento que faz bater as portas, o cão que ladra sem parar, o incauto que desata a martelar ao domingo, a britadeira das obras do andar de cima. É o alarme do vizinho a rasgar a madrugada, assim que finalmente conseguiste adormecer. A saudade é a mosca na tua sopa, é o jingle que não te sai da cabeça, é a roupa que te aperta. A saudade é o teu bolo preferido a sorrir para ti na montra da pastelaria. A saudade é o filme que queres ver e não podes, o livro de que te esqueceste em casa, num dia de esperas várias. A saudade é o que não podes ter, ver, tocar, sentir, cheirar. A saudade é inatingível, é a presença ausente. A saudade é uma puta, que te aconchega sem te tocar. A saudade é o desejo insatisfeito, o quase, o aquém, a ânsia pelo que nunca vem. A saudade é o quarto lugar. A saudade é uma puta, que te arrasta pela lama, num dia de chuva. A saudade é o verão no inverno e o inverno no verão. A saudade é a valorização do que não tens. É o abraço que não aconchega, o beijo que não se sente, as notícias que não vêm, o amor que não se concretiza, o afeto que não acolhe. É a ausência de uma mão num corpo frio. A saudade é uma puta, amarga, insatisfeita, cínica, sádica, dura, impenetrável, irredutível, fatal. É isso que ela é, essa puta.

Case Closed

22/08/2016

Talvez já o tenha dito, o terceiro, nem sei se este não será o quarto, sai sempre mais repetitivo do que os anteriores, talvez nunca seja demais reforçar. O piorzinho do foco na neurose não é nem a chatice em que tornamos a própria vida, a infelicidade e a frustração permanentes, a tristeza que daí advém. O pior é ficar a pensar em vez de fechar os olhos, cerrar os punhos e os dentes e ir, com tudo, o que temos e não temos, honestamente. É não dar oportunidade de perceber se temos ou não capacidade para lidar com o que for, para impor os limites necessários, para ver se é mesmo assim. É tentar ir descerrando os punhos e os dentes à medida que podemos, conseguimos, nos permitimos. É a pressão, o atrofiar do cérebro e do coração.

É a martirização, a fustigação, o cilício mental. É o quanto isso nos condiciona, nos cega para tudo o resto, inclusive para a possibilidade de nos vermos de outro ângulo, de outra perspetiva. É a ferida se tornar verdade absoluta, deus nos livre. É a falta de abertura para a vida que sobra, que está à nossa espera, do lado de fora da janela. É a ausência de liberdade para ir mais além, da origem, inclusive.

Ficar na ferida é permanecer na condição de vítima, é deixar que te controle, dite quem és, é ter a leviandade de achar que conseguimos curá-la, quando o objetivo é viver apesar dela, com ela, deixando que exista, aceitando-a como parte de quem somos, sem que necessariamente nos defina. É ir além. Usando-a para conquistar, em vez de nos servirmos dela para nos encostarmos. Até que não mais nos faça falta, possamos seguir em frente, no amor, e não na raiva, na frustração, na vergonha, no medo.

O simbolismo de todas as coisas

21/08/2016

Gosto da ideia de dar um prazo de validade à neurose, à projeção, para ser mais exata.

Um dia destes, lamentava ter de me despedir da canga, aqui chama-se páreo, escreve-se assim mas diz-se paréo, vai saber de onde vem tal nome, que tinha trazido da Amazónia, por ter um rasgão no meio e já não me ser de grande serventia. Para os incautos, é apenas um bocado de pano, não para mim. Além de ser diferente dos demais, é amazonense. Pode ter sido feito noutro lugar, se calhar foi, por um baiano ou um gaúcho, mas foi na Amazónia que o comprei. Não acontece com tudo, apenas com algumas coisas de que gosto mais. E na grande maioria das vezes, tem pouco a ver com a materialidade da coisa, e mais com o que a mesma representa, simboliza.

amazonia

Cada coisa tem atrelada a si o símbolo de quem somos no momento, o que projetamos no objeto e assumimos para nós.

Às vezes, acontece achar uma boa ideia comprar isto ou aquilo e depois nunca usar e me perguntar o que raio tinha na cabeça quando comprei. Talvez tenha visto noutra pessoa, achado que lhe ficava bem, o objeto representar um ideal qualquer, ou apenas uma projeção, ver naquele objeto, naquela pessoa, o símbolo, ou a afirmação, de qualquer coisa que tenho em mim e ainda não sei, e adquirir, no impulso. Ou por simbolizar uma parte de quem já fui e agora não preciso mais de ser, ou de a expressar publicamente. E nem me ter apercebido de que não me identifico mais com aquele tipo de coisa.

Na grande maioria das vezes, descarto com facilidade, outras não. Quando acontece, já as coisas estão a desfazer-se e eu insisto em permanecer agarrada a elas, como se temesse perder o símbolo em mim que aquele objeto representa. Como se o que fosse nosso alguma vez nos pudesse fugir, como se pudéssemos algum dia escapar do que é nosso. É como se os objetos ditassem que está na hora de pararmos de nos agarrar a tal símbolo, conquista, como se não fosse nosso e concentrássemos toda a nossa força para com ele permanecer. Por já se ter firmado na consciência e de lá não voltar a sair, por já não ser preciso, por estar devidamente integrado, por novos desafios psíquicos estarem à nossa espera ao virar da esquina.

Dou dois anos para resolver a maioria das coisas da cabeça. Para conhecer profundamente alguém, pelo menos até à parte em que dá para decidir ficar ou partir. Para libertar, deixar ir, ou agarrar, com convicção, não como quem depende.

Dois anos depois de ter chegado do Brasil, a minha canga da Amazónia rasga-se, abandono um biquíni inteiro e uma parte de baixo, um vestido que adorava e me fez muito feliz e umas havaianas de médio salto que quase nunca usei, em Cabo Verde. Os biquínis porque estavam velhos, o vestido por não me servir e as havaianas porque me apeteceu deixá-las para alguém que lhes dê mais uso, estavam quase novas.

O simbolismo de cada coisa guardo para mim, a neurose e a projeção que representam idem, fico apenas com a curiosidade em relação ao que virá depois. Também isso é novidade, na grande maioria do tempo, tenho é cagaço em relação a quem virá para o leme da consciência. Não agora, não mais, não desta vez, pelo menos. O que quer dizer que me sinto suficientemente segura para aguentar o que vier e, em princípio, que a neurose de controlo faz cada vez mais parte de outros tempos. Não sei se será a maior, mas é certamente uma das mais saudáveis conquistas.

Os Jogos sem ti

16/08/2016

Ainda me ocorre perguntar porque é que os barreiristas não varrem as barreiras na corrida dos 110m, nunca chegaste a esclarecer-me se eles perdem pontos ou se o que importa mesmo é chegar em primeiro. Já não há falsas partidas, porque o atleta é automaticamente desclassificado, não sei se nos últimos Jogos era assim, não os vi contigo e por isso não apanhei com 16 horas de Atletismo seguidas. No outro dia, dei por mim com a TV ligada no hipismo, sem som, e ainda assim. Havias de ficar orgulhoso. Como vês, superei o trauma de ter a TV ligada, aos berros, no segundo canal, onde estava sempre a dar hipismo, em dias de calor infernal, no tempo em que os verões eram intermináveis.

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Que a fé seja, então, maior do que o medo.

15/08/2016

Receita de pão rústico sem glúten; como tonificar as coxas; the most natural way to wear black eye liner; principais filmes de psicologia que você deveria assistir; 200 filmes para quem ama psicologia; 157 filmes para quem ama psicologia; the artistic quiet type, or being a creative introvert; what jane austen taught me about being single with purpose; Mothers and Verbal Abuse: A Poisonous secret; 10 Concentration Apps That Will Help You Get Down to Business; For the free-spirited females with fiercely sensitive hearts; 29 Expert Beauty Tips Every Woman Should Know; O Relacionamento Amoroso como União Psíquica. 7 alongamentos em 7 minutos para alívio completo da dor nas costas.

Estes são alguns dos 1000 itens guardados no meu facebook, metade, ou mais, eram links para artigos da psychology today. Para não falar na quantidade de: não encontrados, entre outros como: plantas que os mosquitos detestam; 5 Superpowers That Introverts Don’t Know They Have; 10 scientific ways to detox from sugar addiction (before it kills you), depois de ter apagado cerca de 10 ou mais receitas de bolos e sobremesas variadas sem glúten, dando-me conta da esquizofrenia em que me via enredada, considerando os mais de 20 links para exercícios físicos vários, incluindo: Butt Round 2; como perder gordura corporal; perder volume e ganhar tonificação; exercícios para emagrecer nas pernas. No meio de coisas como: What’s the Best Way to React to an Insult?; why men cheat; e 5 Ways to Stop Beating Yourself Up. Notando que guardei o mesmo artigo pelo menos três vezes, várias vezes, e uma evolução nos temas do momento (havia textos guardados desde janeiro de 2015, pelo menos), na forma de um sem número de artigos sobre cada um dos temas, a saber: manipulador, Psicopata, narcisista, empático, intuitivo. E, para desanuviar, imagino, coisas como: New Zealand: 5 Things you must know before you go! e Asilo é coisa do passado: conheça a vila holandesa projetada para idosos com Alzheimer.

Às vezes, os maiores atos de coragem são simplesmente romper com hábitos automáticos que temos nem sabemos porquê. Que já nem ajudam, só atrapalham, mas que mantemos, não vá o diabo tecê-las.

Eliminei praticamente todos os artigos da Psychology Today sem os ler, isto é uma conquista inimaginável; separei os que versam sobre temas da psicologia analítica que me interessam, precisamente, por temas, em documentos separados, alvo de pesquisa séria, por pretender fazer alguma coisa com eles; mandei os de escrita para a pasta do browser correspondente; bem como os de exercícios físicos vários e receitas afins. É um trabalho de sapa que andava para fazer há séculos, agosto parece-me o mês indicado. O próximo passo é atacar as pastas no Chrome. O seguinte talvez seja deixar de seguir a Psychology Today.

No meio dos artigos, vi um que aconselhava a não escrever mais de duas páginas sobre o mesmo tema. Eu preciso de escrever três artigos, no mínimo, para integrar o que o meu inconsciente me manda para a consciência e que inclusive já foi reconhecido pelo ego, caso contrário, nem cá chega. Este é o segundo.

Cheguei à conclusão altamente libertadora de que não preciso que um artigo escrito por um gajo que não me conhece de lado nenhum, sequer as minhas circunstâncias, me venha dizer se estou a ser manipulada, se me encontro numa relação tóxica, se estou a ser vítima de abuso emocional ou verbal, e que não devia era estar boa da cabeça quando me ocorreu que precisava que outrem relatasse uma situação passível de estar a ser vivida por mim ou alguém que me é próximo. Como se precisasse do aval de um estranho para impor limites, como se este adiantasse do que quer que seja, quando o envolvido não vê além da própria sombra e o único limite a impor é pura e simplesmente rejeitar e abandonar. Deixando que a razão alheia se sobrepusesse à minha intuição e sensibilidade, atrapalhando-me o discernimento. Acho que deve ser a isto que chamam: integrar o feminino.

De resto, chega de acumular informação que precisaria de uma vida para ler – e nunca leria, porque jamais me lembraria de ir procurar às pastas, mais rapidamente chegava lá fazendo uma busca simples no Google – apenas para me sentir suficientemente confortável num determinado tema, defendendo-me sem que ninguém me estivesse a atacar, preocupada em me armar com artilharia pesada em vez de me preparar o melhor que puder e souber e lançar-me às feras de uma vez. Deixar de as ver como feras ajuda, o que nos trava é o medo de gente como a gente.

O que estes artigos nos dizem o tempo todo é que somos defeituosos, precisamos de corrigir isto e aquilo para podermos evoluir, o meu estômago revolve-se todo só de escrever esta palavra, melhorar, forçando-nos a focar no suposto defeito o tempo todo, com as esperadas consequências, sentirmo-nos um lixo. E sem controlo nenhum sobre a própria vida e o que queremos fazer com ela. Sendo que as únicas pessoas que sofrem com isso somos obviamente nós, defeituosos ou na luta para superar as expectativas que temos em relação a nós mesmos, ou que imaginamos que esperam de nós, aguardando por uma aprovação que nunca chega, na esperança de uma perfeição que não existe, sequer é desejável, não há nada mais chato do que a perfeição, inclusive. Fora que essa está única e exclusivamente ao alcance de deus, e da natureza. Eles que nos aguentem, na nossa tentativa de chegarmos ao mais próximo de nós, e deles em nós, que conseguirmos. Receita que é emocional e individual, tem inclusive prazo de validade. O que resulta comigo hoje, amanhã já terá de ser diferente. Não se coadunando com a lógica e a universalidade. E é a nossa razão e a nossa emoção, juntamente com o nosso desejo, alinhados, que determinam o tempo das coisas, dos saltos para a frente, da tomada de iniciativa, do ir e seja o que deus quiser. Nada nem ninguém mais.