7 meses

27/09/2016

Tenho vontade de arrumar a vida, de dar alguma ordem ao caos que vivo na minha cabeça, às minhas próprias solicitações, a tudo quanto tenho para fazer, quero fazer. Não vou tentar perceber porquê, temo que a descoberta seja suficiente para resolver a questão e a vontade de compartimentar me passe, deixando mais essa ponta solta. A memória consciente pode até esquecer, mas o inconsciente jamais, e cobra, sem que percebamos. A cobrança vem na forma de apatia, da sensação de assoberbamento, já tive que chegue, e preciso de fechar esse ciclo, dar por resolvida essa pretensão. É-me importante deixar pronto, arrumado, dar-lhe utilidade, tornar disponível a quem desta fonte quiser beber, a do conhecimento, da forma como funciona a nossa cabeça, para poder ficar livre para tudo o resto, que é o que cada vez mais me apetece, entregar-me à arte, à poesia, à vida com magia.

Parece que enquanto temos que fazer, não precisamos de nos preocupar com o vazio existencial, está devidamente camuflado, cheio de objetos, gadgets e afazeres. Mas se não pomos ordem no caos, é como se só houvesse pressão, sem nunca haver o alívio da concretização, e a consequente sensação de vitória, de que conseguimos e acima de tudo de que podemos, mais e mais. Nunca há de faltar o que fazer, ideias para pôr em prática, planos para concretizar. São como as cerejas, engatam uns nos outros à medida que lhe puxamos os fios. É como se o que temos para fazer se acumulasse à entrada do cérebro, obstruindo o caminho, e nos bloqueasse para tudo o resto, com a sensação de não saber por onde começar, que é um trabalho de Hércules, este a que me proponho, que nunca terá fim, que de pouco servirá, que talvez não renda, não compense o esforço, o trabalho tido, as horas despendidas. É também preciso que tenha um objetivo, não pelos aplausos, o retorno, o reconhecimento, mas para fazer sentido. Há o que fazemos por nós e o que fazemos também pela comunidade, o nosso contributo para o mundo, só assim nos tornamos dignos, dando o nosso melhor, deixando esse legado, cumprindo a jornada, celebrando o herói.

Também me apetece voltar a escrever só para mim, na intimidade das páginas de um livro, em vez de me deixar à mercê do virtual, está a tornar-se demasiado impessoal, dado por garantido, além de que não temos mais vida para ausência de intimidade, relações vazias, unilaterais, cada um no seu canto, sem interação, no vazio. O vazio é bom, o equivalente a um mundo inteiro de possibilidades, mas falta-lhe um certo aconchego, uma envolvência, presença. Pronto, já chega, perto, mas não demasiado, com espaço para respirar, para ver, a proximidade em demasia embaça, deixamos de ser íntimos para passarmos a ser pegajosos, fica forçado, assemelha-se a co-dependência, não se aguenta, prefiro ficar na vontade do que representar o peso de uma obrigação, deus me livre, sou parecida contigo nisso, que nunca te queixaste, nunca quiseste incomodar. Vai saber porque nos vemos como incómodo em vez de nos vermos como seres que, tal como os outros, precisam de ser cuidados de quando em vez. E que cuidar é um ato de amor, não de poder, só um neurótico para querer viver dessa forma e, já se sabe, neurose é neurose, por mais confortável, por mais que nos pareça a única forma de vida, não passa de neurose. E se as há que são parte da nossa condição, que não há o que resolver, o que seria da existência se todas o fossem, um enorme desperdício psíquico, já se sabe.

A tentação espreita o tempo todo e até já esbocei umas coisas, mas é como se o meu inconsciente me dissesse: enquanto não acabares o que tens para fazer, não há prazer. E essa sensação de que depois do dever o prazer será interminável porque agora tenho todos os recursos disponíveis é suficiente para a ele me dedicar, com afinco, brio e garbo, como deve ser.

Book lovers are never alone

23/09/2016

Os livros levam-me, amiúde, pequenas fatias do orçamento doméstico. Sempre, toda a vida, o que vai variando são os temas, os tipos.

livros-e-janelas
Não consigo explicar o amor que nutro por livros a envolver janelas. De resto, quero morar aqui.

Durante basicamente toda a existência digna desse nome, a narrativa foi prioritária. Continuo a manter um olho nela, nomeadamente nas biografias, desde que bem escritas, por alguém muito, muito próximo do biografado, que dele goste mas que seja suficientemente apaixonado pelas histórias de vida e devidamente comprometido com o género, que despertaram a minha atenção nos últimos anos, enquanto estive no Brasil, descobri o Ruy Castro e coincidentemente saíram uma série delas, algumas quis ler, de outros autores, por me interessar a vida do biografado, no caso, o Tim Maia e o Steve Jobs. Brilhantes, ambas. Um ou outro autor de literatura que descubro e me apaixono idem, é sempre por eles que me apaixono primeiro, assolapadamente, na ficção como noutros géneros, continua a levar-me a comprar e a ler tudo quanto escreveu. Até que me passe a febre. A de alguns, nunca passa.

No entanto, desde que descobri a psicologia analítica, em 2010, a ela dedico muitas horas do meu tempo e nela continuo a investir pequenas fortunas, a prioridade tem sido essa. É um mundo, um tema puxa o outro, um autor puxa o outro e tudo quanto há que tenha escrito. Os autores são um bocado esquizo, dedicam toda uma vida a um ou dois temas e escrevem sobre eles durante vários anos, os interessados que aguentem. Tem sido, também por isso, que tenho investido incomparavelmente mais no estudo das nossas cabeças. Continue Reading…

Da vida selvagem

23/09/2016

Entre as muitas coisas que sigo no facebook, há uma chamada Health, por ser um dois em um e reunir receitas e exercício físico. Já de lá saquei umas bem boas e só me apetece que chegue a hora de almoço, por exemplo. O procedimento é sempre o mesmo, agarro no link e mando para a pasta correspondente, não sem antes lhe dar uma espreitadela para ver se não vou ao engano. Concentro os meus esforços e a minha atenção em todo o tipo de exercício, desde que contenha as palavras: pernas, braços, barriga e rabo, lá estou eu, a vê-los, ansiosa, na esperança de que a coisa funcione por osmose. Por causa das cruzes, tenho dado particular atenção aos que prometem fortalecer o core, que é como quem diz, o lombo. Foi o que aconteceu quando li as palavras mágicas: 5 exercícios para trabalhar a cintura, que é quase a mesma coisa. Fui lá, toda contente, e deparo-me com isto:

cintura

Esta gente deve estar a gozar, só pode.

Ponto cego

22/09/2016

Conhece o teu ponto cego, aquele lugar na tua cabeça que está suficientemente próximo da consciência para lhe sentires a presença e demasiado afastado para o domares. Prende-se com os teus valores mais primordiais, de que não abdicas, que te são caros, que queres mandar para o mundo, princípios invioláveis, vitais. Que não valem a pena ser discutidos com quem os não partilha, se move por caminhos diferentes, se pauta por outros nortes. São te garantidos, são teus, és livre para por eles te guiar, pautar, reger, lutar. Defendê-los-ás até à morte, bater-te-ás por eles, mas tem cuidado.

Deve iniciar sessão para continuar a ver este conteúdo...Por favor . Ainda não está registado? Associe-se!